Já vi muitas críticas à teoria estética de Schopenhauer baseadas na afirmação de que a música, ao contrário de nos retirar do fluxo cego da vontade, nos afundaria muito mais na tormenta do querer; a música como uma afirmação da vontade. Também li algumas outras observações resaltando a curiosidade de um "filósofo pessimista" ter dado tanta importância à música, uma expressão artística alegre, que produz felicidade. Não tenho conhecimentos suficientemente assentado do assunto para tentar fornecer uma explicação completa, mas, me parece que a solução do enigma é contextualizar o filósofo (embora essa seja, quase sempre, uma prática abusiva, é por vezes necessária):
Qual a primeira coisa que vem a nossa cabeça quando pensamos em música (uma generalização pouco justa, mas útil): 1. pessoas; 2. movimento; 3. festa; 4. álcool; 5. ritmo, letra, melodia e harmonia (nessa ordem); etc.
Para um intelectual do século XIX, o que estava associado à música (especulação minha): 1. teatro; 2. contemplação; 3. melodia, harmonia e ritmo (nessa ordem e geralmente sem letra/voz); etc.
Ou seja, a música para Schopenhauer basicamente a música clássica. E nós, consideramos música muitas outras formas de ordenação de sons. Apesar de existirem outras formas de música além da clássica nos tempos de Schopenhauer elas eram tratadas pelas camadas mais intelectualizadas como "barulho". Nós encaramos a música como euforia, Schopenhauer como contemplação. Essa parece ser a primeira chave para decifrar o enigma da música em Schopenhauer.
Para além disso, parece útil levar em consideração que taxar Schopenhauer de "pessimista" pode trazer uma série de preconceitos desnecessárias à teoria, como, por exemplo, achar que o filósofo tem que falar de infortúnios sempre. Quero tentar trabalhar isso depois, não hoje.
Para mim, há duas falhas gritantes na teoria da música em Schopenhauer:
1. Não ter considerado o "barulho" como música, ou não ter desenvolvido uma teoria consistente de porque o primeiro não pode ser considerado como o segundo;
2. Ter dito que a música não está no espaço. Schopenhauer diz que os sentidos que fornecem dados para o espaço são a visão e o tato, apenas esses dois. A visão e o tato são, por assim dizer, tetradimensionais (as 3 dimensões do espaço somadas a dimensão do tempo), todos os outros sentidos seriam unidimensionais. Orra, como a audição/som/música não está no espaço? Compreendo que o tempo seja a forma fundamental da música, mas o som é percebido através do espaço. Não preciso recorrer a uma teoria materialista para espacializar o som, basta fechar os olhos, basta perguntar a um cego se ele sabe de que direção vem o carro que ele escuta, a que distância ele está.
É sabido que Schopenhauer teve problemas de audição na juventude (assim como seu pai), seria a a-espacialidade da música na teoria schopenhaueriana efeito de uma semi-surdez?
Por fim, uma homenagem minha aos 220 anos do filósofo da vontade (completados em 22 de fevereiro). Uma releitura da pose mais famosa dele:
Técnica? Caneta para CD sobre papel.


1 comentários:
Muito bom, Fernando.
Trabalhe mais nesse assunto, terei prazer em lê-lo.
Você me fez ter vontade de escutar música clássica.
Bom, vou adicionar aos favoritos, abraço.
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